06 março 2007

O dever da palavra

Falar, é antes de tudo deter o poder de falar. Ou mais ainda o exercício do poder assegura o domínio da palavra: só os senhores podem falar. Com respeito aos sujeitos: impostos ao silêncio do respeito, da veneração e do terror. Palavra e poder mantém relação de tal natureza que o desejo de uma se realiza na conquista do outro. Príncipe, déspota ou chefe de Estado, o homem de poder é sempre não só o homem que fala, e sim a única fonte da palavra legítima: palavra empobrecida, pobre, mas rica em eficiência, pois se chama "ordem" e deseja a obediência do executor. Extremos inertes por si mesmos, poder e palavra não subsistem um sem o outro, cada um deles é substância do outro, poder e palavra se estabelecem no ato mesmo de seu encontro. Toda tomada de poder é também uma ganância de palavra.


Todo ele concerne em primeiro lugar nas sociedades fundadas na divisão: amos/escravos; senhores/sujeitos; dirigentes/cidadãos, etc. A marca primordial dessa divisão, seu lugar privilegiado de desenvolvimento, é o feito massivo, irredutível, quiçá irreversível, de um poder separado da sociedade, se exerce sobre ela e, se for necessário, contra ela. O que aqui tem sido designado é o conjunto das sociedades com Estado, desde os despotismos mais arcaicos até os Estados totalitários mais modernos, passando pelas sociedades democráticas nas que o aparato do Estado, se bem liberal, não guarda menos em si o senhor afastado da violência legitimada.


Vizinhança, boa vizinhança da palavra e do poder: aqui que soa claro aos nossos ouvidos há muito tempo acostumados à escuta daquela palavra. Agora não se pode desconhecer esse ensinamento decisivo da etnologia: o mundo selvagem das tribos, o universo das sociedades primitivas ou ainda – e é o mesmo – das sociedades sem Estado, oferece estranhamente a nossa reflexão essa aliança já revelada, mas para as sociedades com Estado, entre o poder e a palavra. Sobre a tribo reina seu chefe e este igualmente reina sobre as palavras da tribo. Em outros meios, e particularmente nos casos das sociedades primitivas americanas, o indígena, o chefe – o homem de poder – detém também o monopólio da palavra. Não é necessário perguntar a estes selvagens: “Quem é seu chefe?”, mas sim: “Quem entre vocês é o que fala?”
Senhor das palavras: numerosas tribos nomeiam assim seus chefes.


Não se pode, pois pensar o um, mas sim a outra, o poder e a palavra, posto que seu vínculo, claramente metahistórico, não é menos indissolúvel nas sociedades primitivas que nas formações estatais. Contudo seria pouco rigoroso limitar a uma determinação estrutural desta relação. Em efeito, o corte radical que divide às sociedades, reais ou possíveis, segundo sejam estatais ou não, este corte não deixaria indiferente o modo de enlace entre poder e palavra. Como se opera isso nas sociedades sem Estado? O exemplo das tribos indígenas nos ensina.


Neles se revela uma diferença, às vezes a mais aparente e a mais profunda, na conjugação da palavra e do poder. Essa diferença radica em que se nas sociedades com Estado, a palavra é o direito do poder, nas sociedades sem Estado, pelo contrário, a palavra é o dever do poder. Ou melhor, pra falar de outra forma, as sociedades indígenas não reconhecem a seu chefe o direito à palavra pelo fato de ser seu chefe: Exige do homem destinado a ser seu chefe que prove seu domínio sobre as palavras. Falar é para o chefe uma obrigação imperativa, a tribo quer ouvi-lo: um chefe silencioso já não é um chefe.


E que não se preste a equívocos. Não se trata aqui do prazer, tão vivo em muitos selvagens, para os belos discursos, pelo talento oratório, pelo afã de falar. Não se trata aqui de questões de estética, e sim de política. Na obrigação de que o chefe seja homem de palavra se adverte, em efeito, toda a filosofia política da sociedade primitiva. Ali se desenvolve o verdadeiro espaço que ocupa o poder, espaço que não é o que poderia acreditar. E é a natureza deste discurso cuja repetição a tribo vê-la cuidadosamente, é a natureza dessa palavra guia que nos indica o lugar real do poder.


Que disse o chefe? O que é uma palavra de chefe? É, em primeiro lugar, um ato ritualizado. Quase sempre o líder se dirige ao grupo cotidianamente, à aurora ou ao crepúsculo. Estendido em sua rede ou sentado ao redor do fogo, ele pronuncia com voz forte o discurso esperado. E sua voz, por certo, necessita de potência para se fazer ouvir. Nada de recolhimento, nada de silêncio enquanto falar o chefe, cada um segue tranqüilamente, em suas ocupações como se não se tratasse de nada. A palavra do chefe não é dita para ser escutada. Paradoxo: nada presta atenção ao discurso do chefe. O melhor finge desatenção. Se o chefe como tal deve submeter-se a obrigação de falar, as pessoas às quais se dirige, em contrapartida deverão parecer não ouvi-lo.


E, em essência estes não perdem, se é possível dizer, nada. Por quê? Porque literalmente, o chefe não disse nada. Seu discurso consiste essencialmente em uma celebração, numerosas vezes repetidas, das normas de vida tradicional: "Nossos antepassados se sentiram bem por viver como viviam. Sigamos seu exemplo e deste modo levaremos juntos uma existência tranqüila". Hei aqui mais ou menos a que se reduz um discurso de chefe. Compreendemos assim que não é algo inquietante para aqueles a quem vai dirigir.


Que quer dizer falar neste caso? Por que o chefe da tribo deve falar para não dizer nada? A que demanda da sociedade primitiva responde está palavra vazia que emana do lugar aparente do poder? Vazio, pois o discurso do chefe não é um discurso de poder: o chefe está separado da palavra porque está separado do poder. Na sociedade primitiva, na sociedade sem Estado, o poder não se encontra do lado do chefe: do qual resulta que sua palavra não pode ser palavra de poder, de autoridade, de ordem. Uma ordem: é o que o chefe não saberia dar, hei aqui o tipo de plenitude rejeitada a sua palavra. Aquele chefe bastante louco pra sonhar, não tanto com o abuso de poder que não possui, sim com o uso mesmo do poder: a um chefe que quer ser chefe se o abandona: a sociedade primitiva é o lugar do rechaço de um poder separado, posto que ela mesma, e não o chefe, é o lugar real do poder.


A sociedade primitiva sabe, por natureza, que a violência é a essência do poder. Nesse saber radica o cuidado constante por manter separados um de outro o poder e a instituição, o mando e o chefe. E é o caminho mesmo da palavra quem assegura a demarcação e traça a linha de divisão. Instruindo ao chefe a mover-se só no elemento da palavra, é dizer, no extremo oposto à violência, a tribo se assegura que todas as coisas permaneçam em seu lugar, que o eixo do poder se reparta no corpo exclusivo da sociedade e que nenhum deslocamento de força venha a alterar a ordem social. O dever da palavra do chefe, esse fluxo constante de palavra vazia que deve à tribo, é sua dívida infinita, a garantia que proíbe ao homem de palavra chegar a ser homem de poder.


Pierre Clastres

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(*) Clastres, Pierre (1974), La Société Contre L'Etat, Les Éditions de Minuit, Paris, Capítulo 7

Estudo aparecido inicialmente na Nouvelle Revue de Psychanalyse, 8, Outono 1973

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